quinta-feira, 24 de abril de 2014

Estamos à borda dum precipício. Perscrutamos o abismo e nos vem, a náusea e a  vertigem. Nosso primeiro impulso é fugir ao perigo. Inexplicavelmente, porém, ficamos.  Pouco a pouco, a nossa náusea, a nossa vertigem, o nosso horror confundem-se numa  nuvem de sensações indefiníveis.

Gradativamente, e de maneira mais imperceptível,  essa nuvem toma forma, como a fumaça da garrafa donde surgiu o gênio nas Mil e uma  Noites. Mas fora dessa nossa nuvem à borda do precipício, uma forma se torna palpável,  bem mais terrível que qualquer gênio ou qualquer demônio de fábulas.

Contudo não é  senão um pensamento, embora terrível, e um pensamento que nos gela até a medula dos  ossos com a feroz volúpia do seu horror. É , simplesmente, a ideia do que seriam nossas  sensações durante o mergulho precipitado duma queda de tal altura.

E esta queda, este aniquilamento vertiginoso, por isso mesmo que envolve essa mais  espantosa e mais repugnante de todas as espantosas e repugnantes imagens de morte e  de sofrimento que jamais se apresentaram à nossa imaginação, faz com que mais  vivamente a desejemos.

E porque nossa razão nos desvia violentamente da borda do  precipício, por isso mesmo mais impetuosamente nos aproximamos dela. Não há na  natureza paixão mais diabolicamente impaciente como a daquele que, tremendo à beira  dum precipício, pensa dessa forma em nele se lançar.

Deter-se, um instante que seja, em  qualquer concessão a essa ideia é estar inevitavelmente perdido, pois a reflexão nos  ordena que fujamos sem demora e, portanto, digo-o, é isto mesmo que não podemos  fazer. Se não houver um braço amigo que nos detenha, ou se não conseguirmos, com  súbito esforço recuar da beira do abismo, nele nos atiraremos e destruídos estaremos.

(POE, Edgar Allan. ; O demônio da perversidade)