terça-feira, 29 de abril de 2014

É hipócrita e elitista defender que "temos que trabalhar no que amamos". Essa possibilidade está aberta para pouquíssimas pessoas. A enorme maioria da população humana, todas pessoas tão incríveis e complexas como eu e você, com um cérebro poderoso e subjetividade profunda, estão fadadas a trabalhar em empregos chatos e repetitivos, entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones. A questão não é se amamos ou não essas atividades remuneradas que executamos, mas se o salário que nos pagam em troca das horas de trabalho é maior ou menor do que tudo que esse emprego nos suga em termos de tempo e energia vital. A questão é se nos resta tempo (realmente) livre e energia vital produtiva para viver nossas vidas plenas de pessoas humanas quando não estamos entregando cartas, dobrando roupas, atendendo telefones.

Alex Castro
Toda escolha tem ônus e bônus que só sabe quem a escolheu. (...)
De um modo ou de outro, pagamos sempre o preço das nossas escolhas. A conta sempre vem. (...)
Engolir sapos não é opcional. Mas podemos escolher quais sapos queremos engolir.

Alex Castro

sexta-feira, 25 de abril de 2014



Tudo aquilo que vemos ou nos parece
Nada mais é do que um sonho dentro de um sonho.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Seja gentil com qualquer pessoa, independente do gênero, da cor, da idade – diferente do cavalheirismo, em que só o homem faz algo para uma mulher, a gentileza não tem gênero. O cavalheirismo é só outro nome para uma atitude paternalista, que pressupõe que a mulher é incapaz e que precisa de um homem para abrir a porta, para carregar uma sacola pesada ou coisa do tipo. Já ser gentil significa que você vai segurar a porta independente de quem estiver entrando depois de você, seja uma mulher, uma senhora, o porteiro, uma criança ou um lutador de vale-tudo. Enquanto só um homem pode ser cavalheiro, tanto homens quanto mulheres podem ser gentis. Ou seja: a gentileza pode ser praticada por qualquer pessoa em favor de qualquer pessoa. Ser gentil também significa que você vai fazer algo bom para as pessoas sem esperar nada em troca, muito menos uma chuva de confetes. Afinal, ser gentil e ter empatia é o requisito mínimo para um ser humano decente.

Aline Valek
Estamos à borda dum precipício. Perscrutamos o abismo e nos vem, a náusea e a  vertigem. Nosso primeiro impulso é fugir ao perigo. Inexplicavelmente, porém, ficamos.  Pouco a pouco, a nossa náusea, a nossa vertigem, o nosso horror confundem-se numa  nuvem de sensações indefiníveis.

Gradativamente, e de maneira mais imperceptível,  essa nuvem toma forma, como a fumaça da garrafa donde surgiu o gênio nas Mil e uma  Noites. Mas fora dessa nossa nuvem à borda do precipício, uma forma se torna palpável,  bem mais terrível que qualquer gênio ou qualquer demônio de fábulas.

Contudo não é  senão um pensamento, embora terrível, e um pensamento que nos gela até a medula dos  ossos com a feroz volúpia do seu horror. É , simplesmente, a ideia do que seriam nossas  sensações durante o mergulho precipitado duma queda de tal altura.

E esta queda, este aniquilamento vertiginoso, por isso mesmo que envolve essa mais  espantosa e mais repugnante de todas as espantosas e repugnantes imagens de morte e  de sofrimento que jamais se apresentaram à nossa imaginação, faz com que mais  vivamente a desejemos.

E porque nossa razão nos desvia violentamente da borda do  precipício, por isso mesmo mais impetuosamente nos aproximamos dela. Não há na  natureza paixão mais diabolicamente impaciente como a daquele que, tremendo à beira  dum precipício, pensa dessa forma em nele se lançar.

Deter-se, um instante que seja, em  qualquer concessão a essa ideia é estar inevitavelmente perdido, pois a reflexão nos  ordena que fujamos sem demora e, portanto, digo-o, é isto mesmo que não podemos  fazer. Se não houver um braço amigo que nos detenha, ou se não conseguirmos, com  súbito esforço recuar da beira do abismo, nele nos atiraremos e destruídos estaremos.

(POE, Edgar Allan. ; O demônio da perversidade)