segunda-feira, 30 de setembro de 2013

"eu poderia tentar argumentar: foi mal, sou tão distraído, minha cabeça está cheia de problemas, não lembrei mesmo…

mas a distração que me faz esquecer não é o que me justifica: é o que me condena.

gostaria de poder dizer que sou uma pessoa boa que tem péssima memória e é muito distraída. mas não: minha péssima memória e minha extrema distração são sintomas de meu profundo desinteresse por tudo que não diga respeito a mim.

eu não esqueço os nomes das editoras com quem tenho que fazer networking. o dinheiro que emprestei pra uma amiga, o endereço da nigeriana com quem flertei na praia.

eu esqueço de lavar a louça (“puxa, fiquei aqui distraído com o filme, agora ela já lavou, amanhã ajudo!”), de assinar o livro de ouro dos porteiros (“putz, com essa correria de natal, nem lembrei, mas tudo bem, ano que vem dou em dobro!”), de responder o email da amiga que pediu minha ajuda ("caramba, essa mensagem está na minha caixa de entrada há três anos, ela já deve ter resolvido sozinho.")

mas não tem problema: na minha cabeça, sempre me absolvo. afinal, sou o protagonista do filme da minha vida e tudo o que eu faço sempre se justifica.

é um de tantos paradoxos da vida narcisista: julgo os outros por suas ações, mas quero sempre ser julgado por minhas intenções.

quando dirijo perigosamente e alguém me xinga, ainda me dou ao direito de me chatear:

porra, será que ele não vê que estou com pressa? respeito as leis do trânsito todo dia, mas hoje tenho aquela reunião importantíssima!

não interessa o que seja: ou agi certo (e o mundo tem que reconhecer e me premiar, senão é muita injustiça) ou agi errado, mas por um motivo totalmente válido (e o mundo tem que reconhecer e me entender, senão é muita injustiça).

hoje em dia, penso o contrário: qualquer comportamento meu que precise ser justificado ou racionalizado já está por definição errado.

mais ainda: talvez eu não seja uma pessoa boa."


Alex Castro