terça-feira, 30 de julho de 2013

Parte, e tu verás

Parte, e tu verás 
Como as coisas que eram, não são mais 
E o amor dos que te esperam 
Parece ter ficado para trás 
E tudo o que te deram 
Se desfaz. 

Parte, e tu verás 
Como se quedam mudos os que ficam 
Como se petrificam 
Os adeuses que ficaram a te acenar no cais 
E como momentos que passaram apenas 
Perecem tempos imemoriais. 

Parte, e tu verás 
Como o que era real, resta impreciso 
Como é preciso ir por onde vais 
Com razão, sem razão, como é preciso 
Que andes por onde estás. 

Parte, e tu verás 
Como insensivelmente esquecerás 
Como a matéria de que é feito o tempo 
Se esgarça, se dilui, se liquefaz 
E qualquer novo sentimento 
Te compraz 

Repara como um novo sofrimento 
Te dá paz 
Repara como vem o esquecimento 
E como o justificas 
E como mentes insensivelmente 
Porque és, porque estás 

Ah, eterno limite do presente 
Ah, corpo, cárcere, onde faz 
0 amor que parte e sente 
Saudade, e tenta, mas 
Para viver, subitamente, mente 
Que já não sabe mais 
Vida, o presente; morte, o ausente - 
Parte, e tu verás…
(Vinícius de Moraes)