terça-feira, 30 de julho de 2013

Pintinhas

A vaidade é um animal que se deve alimentar em silêncio, para que ele não desperte completamente. De outra forma, torna-se insaciável.

Por isso, às vezes, quieto, olho para você longamente. E você me pergunta:

- O que foi?

E eu, bobo, respondo:

- Nada. Só olhando.

A mais banal das respostas. Usamos até nas lojas para dispensar vendedores quando queremos só dar uma espiada. Mas quando olho assim pra você é porque não quero dar apenas uma espiada. Quero tudo. O que desejo não se compra, também não se toma. Apenas se recebe, como um presente que nos espera a sorrir no portão de desembarque. E, olha lá, necessário é devolver depois de um tempo.

Sabe, você tem um jeito de pronunciar as palavras e, outro dia, me peguei a imitá-la em uma conversa banal com amigos. Uma maneira de falar a palavra “também”, por exemplo. Apesar de ela ser indispensável no dia a dia, sempre a achei horrível. Com sua pronúncia, inconfundível, tornei-a mais bela aos meus ouvidos.

Sinto que me torno um pouco de você assim, nessas coisinhas. Percebo às vezes que mudo, mesmo sem querer, meu jeito de me comportar para de alguma forma tornar-me mais semelhante. Não, não quero ser você, mas sim manter minha identidade, cada vez mais forte, através de coisas que, em você, acho belas.

Mais que achar belo, nos tornamos, aos poucos, aquilo que amamos. Olhe para quem você ama e pense se você quer ser daquele jeito. Se a resposta for sim, é provável que, de fato, seja amor. Se for não, não excluo a possibilidade de amor, mas talvez seja outra coisa.

Amo o que é belo, como o resto da humanidade, e, da mesma forma, acho belo o que amo. Assim, sei que acharei belo o mínimo gesto seu. O apagar todas as luzes e deixar a da varanda acesa para manter o quarto em uma suave penumbra, o comer de colher, o apertar dos olhos quando sorri, o chorar ao cortar cebola e o deixar-me ajudar na cozinha quando não permite isso a ninguém, o saber exatamente o que quer quando compra alguma roupa, o lembrar-me onde deixei as chaves, o fazer café na sua própria caneca, o ralhar com o sol que nasce na janela do meu quarto a iluminar tudo logo pela manhã, o ensinar-me jeitos e lugares de morder, o vasculhar de seus dedos em meu rosto, em minhas orelhas, bochechas e queixo, o dormir do lado esquerdo da cama, o deixar-se levar pelas histórias no cinema, o dançar e o interpretar ao contar uma história, o surtar das palavras ao escrever algo, o falar, às vezes, em segunda pessoa como se fôssemos um casal muito antigo.

- Sabes o que quero dizer, my lord?

- E como não saberia o que querias dizer, milady?

Alguns dizem que amamos no outro o que sabemos de belo em nós e detestamos nele aquilo que conhecemos de horrível em nosso íntimo. E, nesse misterioso processo – misterioso porque é difícil saber quando uma coisa se torna uma e uma se torna outra em uma tênue fronteira -, nesse misterioso processo, tentamos nos descobrir.

Ouvi certa vez a história de uma jovem que seria desposada por um vampiro. E ela estava atormentada com o fato de nunca mais poder ver seu reflexo, pois os espelhos nada dizem aos vampiros.

- Como poderei saber se estarei bela para você? – disse ela.

- Eu verei. E direi. – ele respondeu.

Quando se pergunta a outro se ficamos bem em uma roupa ou com um penteado, na verdade, queremos saber, no fim das contas, quem somos. Estamos cegos para nós e os espelhos nada nos dizem.

Eu queria ser seu espelho mais íntimo, aquele para o qual se olha e só se vê a verdade. Poder, assim, dizer-lhe quem você é. Doa a verdade ou faça, a verdade, gozar. Que em mim você se visse como eu a vejo, sem arestas, sem finos tecidos que permitem apenas a visão de uma silhueta. Não, não tenho noção de sua totalidade, nem sei se posso ou quero ter, se mesmo a minha, para mim é, ainda, secreta.

Porém, certas coisas não se dizem com palavras.

Mas está aqui. Está aqui essa totalidade. Em algum lugar. Onde? Está. Sei, pois quando olho em silêncio para você, longamente, você olha pra mim também. E é esse meu espelho. Nele tento me olhar não para amar a mim apenas, o que seria egoísta, mas para tentar me encontrar pleno naquele instante. E, no exato segundo em que penso que conseguirei, seus olhos se apertam em um sorriso, não seriam seus olhos se não o fizessem, e você pergunta:

- O que foi?

- Nada. Só olhando.

Era eu, que navegava por lugares seus como um desbravador sem que você se desse conta disso. Me perdia, me encontrava, alternadamente, quase desorientado, mas sem fazer muito caso para esse fato.

Não sei se é verdade que eu, a seguir, descobriria um pouco mais sobre mim. Ou sobre você. Pode ser ilusão, pode ser pretensão, pode ser vaidade. Mas nessa hora desvio um pouco o olhar para o Cruzeiro do Sul.

São suas pintinhas.

Uma constelação.

Não lembro que os primeiros navegadores a usaram para se orientar nos mares daqui.

Apenas penso que ela é a coisa mais linda desse mundo."


Alessandro Martins