segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

não é que eu “acredito” em amor.

“acreditar” dá a entender que o amor é uma coisa ali externa, que existe fora de nós, que podemos escolher acreditar ou negar. como se fosse um objeto. pior, um produto.
pra mim, amor é, um dia, de repente, encontrar uma pessoa e gostar dela.
e, mesmo sem laços possessivos ou comprometidos, no dia seguinte, você quer ver aquela pessoa de novo.

pois te parece que ela é o tipo de pessoa interessante que fala coisas interessantes e anda com outras pessoas interessantes e que vai fazer coisas interessantes, e você quer estar por perto pra participar disso.
e assim os dias vão passando. e viram meses e viram semanas e viram anos. e aquela pessoa continua sempre interessante e você continua interessado nas coisas interessantes que ela vai dizer e que ela vai fazer.

e, mais ainda, todos continuam livres, livres para também encontrar e ouvir e conviver e amar outras pessoas interessantes, pessoas que adicionam conteúdo e valor a nossas vidas, pessoas que vão constituindo uma rede admirável de pessoas interessantes que orbitam umas às outras.

e, todo dia, zera tudo. todo dia, a escolha é refeita. todo dia, podemos decidir que, finalmente, deu. que aquela pessoa já contribuiu tudo o que poderia contribuir. que não vai mais dizer ou fazer coisas interessantes. ou que não temos mais interesse nas futuras coisas interessantes que ela pode dizer ou fazer. e ninguém seria canalha por isso.

mas, olha, sei não.

acho que a Outra Significativa vai fazer e dizer coisas ainda mais interessantes e incríveis em 2014.
então, por enquanto, vou ficando.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

"As pessoas irão te julgar de qualquer forma. Então esqueça os outros e seja você mesmo."

Compreender, ter compaixão e perdoar: você sabe a diferença?

Quando uma pessoa age de determinado modo, e esse modo te machuca, você pode sofrer ou tentar perceber quais motivos levaram a pessoa a agir assim, bem como, perseguir o perdão.Todas essas escolhas são igualmente benéficas, porque nos auxiliam a ficarmos bem conosco, bem como amadurecermos.

No entanto, não é por que treino ampliar minha consciência e/ou minha compaixão, que ao perceber que repetidamente determinado comportamento de uma pessoa me machuca, preciso continuar me expondo a ele.

Podemos ter o intento de julgar menos, compreender e acolher mais, mas isso não faz de nós seres coniventes e nem disponíveis para os maus tratos do outro.

Ser compreensivo e compassivo quer dizer buscar enxergar as atitudes das pessoas sob uma ótica global. Ou seja, percebendo as situações pelas quais essas pessoas passaram e as feridas que carregam, feridas essas que influenciam suas escolhas e comportamentos.

Ver o outro sob essa perspectiva nos ajuda a nem nos colocarmos acima e nem abaixo dele, somente com um ser afim, que também carrega suas cicatrizes. Isso cria mais senso de solidariedade e mais proximidade. No entanto, não é por que posso compreender os motivos que levaram alguém a agir de determinado modo que me feriu e, com base nisso até perdoá-lo, que preciso me manter na situação de continuar sendo agredido.

Compreender, ter compaixão e perdoar nada tem a ver com "dar a outra face". Podemos desenvolver essas percepções e, ao mesmo tempo, escolher nos preservarmos optando, por exemplo, diminuir ou cortar contato com essa pessoa que age de uma maneira que machuca.

Ela tem seu livre-arbítrio para manter seu comportamento e eu posso entender e aceitar isso, bem como também tenho direito ao meu livre-arbítrio de optar por não mais me expor a esse contexto.

Compreensão e respeito para com o outro se tornam tão ou mais possíveis quando praticamos isso conosco.

Thaís Petroff

domingo, 15 de dezembro de 2013

"Eu desejo que você consiga perceber a sua força, por causa e apesar de. Que saiba que é grandioso demais para achar que não é, mas que, às vezes, têm limitações que precisam ser trabalhadas. Eu desejo que você, antes de me contar seus defeitos, que fale para se escutar sobre as suas qualidades, as essenciais, porque o material não te faz mais bonito ou menos interessante, seu coração é a sua nobreza.

Eu desejo que no mundo haja mais pessoas com a sua generosidade, mas que sua percepção disso seja convertida para o seu Bem também. Desejo que você não apenas ajude, mas aprenda a pedir ajuda: se humildando na sua capacidade de dar e se permitindo receber o que é justo.

Desejo que, no auge do seu cansaço, você não fuja, que simplesmente consiga chorar por um profundo respeito a si mesmo. E que deixe que o Universo te afague, que a Vida te acaricie, que um Poder Superior te ouça e dê o colo que você precisa. Eu desejo que você possa dormir quando sentir sono. E que possa acordar com a boa notícia que espera.

Porque você merece comemorar mais uma vitória. Você merece sorrir com seu coração." (Marla de Queiroz)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?



Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz.
Fernando Anitelli
Nossas diferenças terminam nas cores e não na capacidade de voar.

domingo, 17 de novembro de 2013

Sinergia

A gente dorme pensando que quando a gente acordar,talvez,alguma coisa mude. A gente não perde a esperança que daqui a algumas horas, tudo se torne completamente diferente.

Mas a vida tem dessas de deixar as coisas exatamente como estão, mesmo que a gente precise que elas mudem radicalmente.

Talvez a vida bote a gente pra dormir, pra que a gente , e não o mundo, acorde diferente.

Mesmo que seja quase imperceptível, no momento em que se acorda, alguma coisa renova. Tolos somos nós, de acharmos que o que melhora é só o cansaço. Sono vem pra entorpecer o cérebro da gente. Tira essa angústia de ter que se viver pensando sempre, bota o corpo pra respirar um pouco , bota a vida pra ser mais suave.

Aí a gente acorda um pouco melhor pra enfrentar mais um turbilhão de viver. Quantas vezes a gente dorme, porque a gente simplesmente quer parar de viver um pouco, de ver um pouco, de suportar um pouco. A gente dorme pra esquecer e acorda porque acha que de alguma forma, isso faz com que tudo mude.

Muda não. Tudo vai estar lá, da forma que se deixou.A bagunça do quarto, a bagunça da vida, do mundo.

Há uma ínfima possibilidade que talvez alguém passe e tire alguma coisa do lugar, ou bote outra coisa ali, mas só acrescenta ou tira.

Muda não. A esperança de mudança tem que morar no nosso sono, e acordar junto com a gente. Sabendo que tudo pode tá igual, mas que aquela sensação de se espreguiçar e levantar pra viver mais algumas horas do dia, faz toda diferença.

E simplesmente faz. Assim que seu cérebro se recompõe e te devolve seus sentidos até então adormecidos, desperta neles novas possibilidades.

Ele não apaga as últimas horas, mas possibilita energia para as próximas. E é o que faz as coisas se transformarem.

E é isso aí. É só a gente mesmo pra transformar as próximas horas em algo completamente diferente.

Portanto, simplesmente acorde. O mundo não vai parar de girar . Ele não gira em torno de você. Movimente-se o mundo.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A impontualidade do amor



Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser? Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans. Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema. Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz. Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina. Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você. Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana. Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida. O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente. Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza. Idealizar é sofrer. Amar é surpreender.

Martha Medeiros

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Querer-se livre é também querer livres os outros.
- Simone de Beauvoir

Sermão da planície (para não ser escutado)

Crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada no Jornal do Brasil, em 18/06/1974.
Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade.
Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte.
Bem-aventurados os que não têm a paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto.
Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio.
Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia.
Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.
Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pela dos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.
Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e assistentes ocasionais de peladas.
Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão a cores a tempo de acompanhar a Copa do Mundo, pois, assistindo pelo aparelho do vizinho, sofrem sem pagar 20 prestações pelo sofrimento.
Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo.
Bem-aventurados os que não moram em ruas de torcida institucionalizada, ou em suas imediações, pois só recolhem 50% do barulho preparatório ou comemoratório.
Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade.
Bem-aventurados os que nasceram, viveram e se foram antes de 1863, quando se codificaram as leis do futebol, pois escaparam dos tormentos da torcida, inclusive dos ataques cardíacos infligidos tanto pela derrota como pela vitória do time bem-amado.
Bem-aventurados os que, entre a bola e o botão, se contentaram com este, principalmente em camisa, pois se consolam mais facilmente de perder o botão da roupa do que o bicho da vitória.
Bem-aventurados os que não confundem a derrota do time da Lapônia pelo time da Terra do Fogo com a vitória nacional da Terra do Fogo sobre a Lapônia, pois a estes não visita o sentimento de guerra.
Bem-aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro nesta e em todas as futuras Copas do Mundo, como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

(Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley)

domingo, 20 de outubro de 2013

(...), no final foram as tardes de domingo que se tornaram insuportáveis: aquela terrível sensação de não ter absolutamente nada para fazer que se instala em torno das 14h55, quando você sabe que já tomou um número mais que razoável de banhos naquele dia, quando sabe que, por mais que tente se concentrar nos artigos dos jornais, você nunca conseguirá lê-los nem colocar em prática a nova e revolucionária técnica de jardinagem que eles descrevem, e quando sabe que, enquanto olha para o relógio, os ponteiros se movem impiedosamente em direção às 16 horas e logo você entrará no longo e sombrio entardecer da alma.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

"uma ex namorada um dia me olhou no olho e perguntou:

alex, você precisa de mim?


e eu dei a única resposta possível:

não.

ela fez aquela cara de cachorro sem dono, e eu expliquei:

claro que não preciso de você, ué. e nem você de mim. somos dois seres humanos adultos e independentes que se sustentam. eu te amo muito e estou com você por escolha própria. quando nosso relacionamento fatalmente terminar, seja por iniciativa minha, sua ou mútua, eu vou sofrer e ficar triste (porque te amo e escolhi estar com você, mesmo que tenha depois desescolhido ou sido desescolhido) mas, em breve, a vida vai voltar ao normal, e vou conhecer outra pessoa, e vou dar outro primeiro beijo, e serei feliz novamente. então, não, meu amor, não preciso de você para nada.

ao que ela tascou: porra, alex, você não é nada romântico!

e eu:

poxa, acho muito mais romântico estar com alguém 100% por minha livre e espontânea vontade de adulto independente do que, cruz credo, estar com alguém porque preciso da pessoa. como isso pode ser bom, saudável, positivo, romântico?

aliás, preciso para quê? preciso como? por muleta emocional? pra pagar as contas? por que só essa outra pessoa me atura?

não quero nunca estar com alguém que precise de mim. quero pessoas que estejam comigo por vontade própria e que se sintam livres e capazes de irem embora a qualquer momento."



Alex Castro

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto , você não deve entregá-lo á ninguém , nem mesmo a um animal. Envolva o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro , sem movimento , sem ar - ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar se indestrutível, impenetrável , irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e pertubações do amor é o inferno.

Em "Os quatro amores" - C.S.Lewis

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

"eu poderia tentar argumentar: foi mal, sou tão distraído, minha cabeça está cheia de problemas, não lembrei mesmo…

mas a distração que me faz esquecer não é o que me justifica: é o que me condena.

gostaria de poder dizer que sou uma pessoa boa que tem péssima memória e é muito distraída. mas não: minha péssima memória e minha extrema distração são sintomas de meu profundo desinteresse por tudo que não diga respeito a mim.

eu não esqueço os nomes das editoras com quem tenho que fazer networking. o dinheiro que emprestei pra uma amiga, o endereço da nigeriana com quem flertei na praia.

eu esqueço de lavar a louça (“puxa, fiquei aqui distraído com o filme, agora ela já lavou, amanhã ajudo!”), de assinar o livro de ouro dos porteiros (“putz, com essa correria de natal, nem lembrei, mas tudo bem, ano que vem dou em dobro!”), de responder o email da amiga que pediu minha ajuda ("caramba, essa mensagem está na minha caixa de entrada há três anos, ela já deve ter resolvido sozinho.")

mas não tem problema: na minha cabeça, sempre me absolvo. afinal, sou o protagonista do filme da minha vida e tudo o que eu faço sempre se justifica.

é um de tantos paradoxos da vida narcisista: julgo os outros por suas ações, mas quero sempre ser julgado por minhas intenções.

quando dirijo perigosamente e alguém me xinga, ainda me dou ao direito de me chatear:

porra, será que ele não vê que estou com pressa? respeito as leis do trânsito todo dia, mas hoje tenho aquela reunião importantíssima!

não interessa o que seja: ou agi certo (e o mundo tem que reconhecer e me premiar, senão é muita injustiça) ou agi errado, mas por um motivo totalmente válido (e o mundo tem que reconhecer e me entender, senão é muita injustiça).

hoje em dia, penso o contrário: qualquer comportamento meu que precise ser justificado ou racionalizado já está por definição errado.

mais ainda: talvez eu não seja uma pessoa boa."


Alex Castro

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

"(...) e assim se foram escoando as horas da noite, que o relógio da sala de
jantar batia seca e regularmente, como a lembrar aos dois amigos que as nossas paixões não
aceleram nem moderam o passo do tempo."

Machado de Assis - A mão e a luva
"O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito
cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu
que chegaste ao fim, põe a epístola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um
“post-scriptum”..."

Machado de Assis - A mão e a luva

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. a maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio.

mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. é uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

se quero ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta, então, basta ser. ser quem eu quero ser é o mínimo que devo a mim mesmo. se não sou nem isso, então não sou nada.

Alex Castro
"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade."
Carlos Drummond de Andrade
Poema XXI de O Guardador de Rebanhos (heterônimo Alberto Caeiro)

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

"Recolhi os cacos e joguei pra trás. Que cortem os pés de quem tentar me seguir, que cortem meus pés se eu tentar voltar."

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"Quando nada parece ajudar...eu olho o cortador de pedras martelando sua rocha, talvez cem vezes,  sem que nem uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas e eu sei que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as que vieram antes." (Jacob Riis)
era uma vez uma boneca de sal. após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu compreendê-lo. perguntou ao mar: “quem é você?”

e o mar respondeu: “sou o mar.”

“mas o que é o mar?”

e o mar respondeu: “o mar sou eu.”

“não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. como faço?”

o mar respondeu: “encoste em mim.”

então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. sentiu que começava a entender mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.

“mar, o que você fez?!”

e o mar respondeu:

“eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. para entender tudo, é necessário dar tudo.”

ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. quanto mais entrava, e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:

“afinal, o que é o mar?”

então, foi coberta por uma onda. em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:

“o mar… o mar sou eu!”

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Àqueles que tem dedicado a afeição a um cão fiel e inteligente pouca dificuldade tenho em explicar a natureza ou a intensidade da recompensa que daí deriva. Há qualquer coisa no amor sem egoísmo e abnegado de um animal que atinge diretamente o coração de quem tem tido freqüentes ocasiões de experimentar a amizade mesquinha e a fidelidade frágil do simples Homem.

- Allan Poe - O gato preto.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
-tem que ter reflexo.

(Pablo Neruda)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os humanos, enquanto manada, são lamentáveis. Individualmente, alguns prestam.

A melhor maneira de desentocá-los? Se mostrar.

Eu me mostro porque preciso. Eu me mostro porque é assim que eu sou. Mais do que tudo, eu me mostro porque esse é o melhor jeito de conhecer quem está a minha volta. Escancarando de vez.

Algumas pessoas têm medo de se mostrar. O que minha mãe vai pensar? Será que a tia Maricota vai achar ruim? E se eu perder amigos?

Mas, caramba, o objetivo é justamente esse!

A melhor coisa de se mostrar é se livrar daquelas pessoas que nunca foram realmente suas, aquelas pessoas que amam mais seus próprios preconceitos do que você, aquelas pessoas que, por força das convenções vigentes, simplesmente não vão mais conseguir te amar e te aceitar. Deixe elas seguirem viagem. Quem se importa com elas?

Eu tento me concentrar em quem vale a pena.

É ao me revelar que descubro que vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede.

É ao me mostrar que descubro quem vai me dar as mãos nessa viagem e quem vai estancar na encruzilhada.

Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas.

Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Aos 45' do 2º tempo
virei o jogo
Eu ganhei
Mas era o empate que interessava

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A vida é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem.
(Horace Walpole)
Qualquer um pode zangar-se, isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa não é fácil.

ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.”
Clarice Lispector

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Se o trabalho é uma coisa tão boa, por que os ricos não ficaram com todo para eles?

terça-feira, 6 de agosto de 2013

todo dia, acordo ao lado da pessoa que (mesmo sabendo que é uma ilusão causada pelos feromônios e pela química do meu cérebro) eu sinceramente considero ser a mais incrível, fodona, inteligente, linda, talentosa, etc, que já conheci.

todo dia, penso que estou vivendo uma das melhores fases da minha vida e que nunca fui tão feliz.

todo dia, me bate um medo enorme, agudo, subterrâneo, pulsante de perdê-la e, junto, perder toda a felicidade da minha vida.

todo dia, preciso repetir para mim mesmo que ela não é minha posse e, por isso, não tenho como perdê-la; que ela é um ser humano livre que caminha ao meu lado e que pode parar de caminhar a qualquer momento; que terminar um relacionamento nunca é ruim, pois nunca houve na história relacionamento bom e harmonioso que acabou; que o dono da minha felicidade sou eu e que vou sempre saber ser feliz, com ela, sem ela, com a próxima, sem ninguém.

só então, quando estou convencido, quando o medo diminuiu, quando os batimentos desaceleraram, eu me levanto da cama, escovo os dentes e volto para acordá-la com um beijo de bom-dia.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

“Para mim, a grande questão não é se deus existe ou não, mas se nós vamos de alguma maneira continuar existindo depois da morte. Eu acredito que vamos continuar, de alguma maneira. Tenho que acreditar. Porque se não vamos, o que é essa vida senão um sonho? Aí é que ela vida não tem mesmo sentido, propósito nenhum. Se não há sentido para quê continuar? Por que não dar um tiro na cabeça daqui a cinco minutos (quando terminar o café)?”

Eu não dou um tiro na cabeça agora porque (além de não ter uma arma) quero saber o fim da novela, porque ainda há uns dois mil livros que eu quero ler e umas cem mulheres que quero comer, porque eu quero assistir os próximos filmes do Almodóvar pra saber o que esse louco vai aprontar, porque ainda falta eu escrever no mínimo uma dúzia de livros que tenho dentro de mim, e etc etc. Será que tudo isso não é motivo suficiente pra não se enfiar uma bala na cabeça?

Alex Castro

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

"Mas se a maior parte do tempo é um saco - disse, lentamente, dando tempo para que suas palavras fossem bem entendidas - então por que você continua nessa? Por quê? (...) é só por que você acha um desafio interessante enfrentar o tédio imbecilizante desse trabalho?" 

(Douglas Adams - Guia do Mochileiro das Galáxias)

Não sei se você já se sentiu assim, querendo dormir por mil anos. Ou se sentiu que não existe. Ou que não tem consciência de que existe. Ou algo parecido.
(Stephen Chbosky - As vantagens de ser invisível)
Estou me sentindo ótimo! De verdade. Tenho de me lembrar disso na próxima vez em que tiver uma semana ruim. Já aconteceu com você? Já se sentiu muito mal, depois tudo passar e você não saber por quê? Eu tento me lembrar, quando me sinto ótimo como agora, que haverá outra semana terrível algum dia, então procuro guardar o maior número de detalhes que posso, e assim, na próxima semana terrível, vou poder lembrar esses detalhes e acreditar que vou me sentir bem novamente. Não funciona muito, mas acho muito importante tentar.
(Stephen Chbosky - As vantagens de ser invisível)
Não sei quanto tempo eu posso continuar sem um amigo. Eu costumava ser capaz de fazer isso com muita facilidade, mas foi antes de eu saber como era ter um amigo. É muito mais fácil não saber das coisas de vez em quando.
(Stephen Chbosky - As vantagens de ser invisível)
- Você sempre pensa muito nisso, Charlie?
 - Isso é ruim? (...)
 - Não necessariamente. É só que às vezes as pessoas usam o pensamento para não participar da vida.

(Stephen Chbosky - As vantagens de ser invisível)
"Eu morreria por você. Mas não viveria por você." 
(Stephen Chbosky - As vantagens de ser invisível)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

“Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer – nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior – muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono.”
 (Clarice Lispector)

terça-feira, 30 de julho de 2013

Fazer ao próximo o que gostaríamos que nos fizessem é fácil. Quero ver é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreender seus sentimentos e tratá-lo como ele gostaria de ser tratado de acordo com sua individualidade.
"Há uma teoria que diz que se um dia alguém descobrir exatamente qual é o propósito do Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais bizarro e inexplicável. Há uma outra teoria que diz que isso já aconteceu."
 (Douglas Adams)
Ninguém se lembra do início. Ilusão de eternidade. Eternidade em um coração mortal.
Quando somos crianças, morte é um conceito distante. Até que você começa a sentir o tempo e percebe que vai morrer.
Você é um ponto perdido na eternidade. Incontáveis eras se passaram antes de você e depois de você incontáveis eras virão. Você entra no meio de uma história cujo fim jamais verá.
" […] Pois bem, começamos nossa vida na cidade. Ali, a vida é melhor para as pessoas infelizes. Na cidade, um homem pode viver cem anos e nem perceber que já morreu e apodreceu há muito. Não há tempo para alguém examinar a si mesmo, está tudo ocupado. Os negócios, as relações sociais, a saúde, as artes, a saúde dos filhos, a sua educação. Ora é preciso receber estes e aqueles, ir visitar uns e outros, ora é preciso encontrar-se com esta, ouvir aquele ou aquela. Na cidade, a qualquer momento, há uma, ou simultaneamente duas, três celebridades, que não se pode deixar de ver. Ora é preciso tratar-se ou providenciar o tratamento de outrem, ora são os professores, explicadores, governantas, e a vida corre vazia, vazia. E assim vivemos, sentindo menos dolorosa a nossa coabitação." (Leon Tolstói, em “A Sonata a Kreutzer", 1889)

Quando me amei de verdade

Quando me amei de verdade
pude compreender
que em qualquer circunstância,
eu estava no lugar certo,na hora certa.
Então pude relaxar.
Quando me amei de verdade
pude perceber que o sofrimento
emocional é um sinal de que estou indo
contra a minha verdade.
Quando me amei de verdade
parei de desejar que a minha vida
fosse diferente e comecei a ver
que tudo o que acontece contribui
para o meu crescimento.
Quando me amei de verdade
comecei a perceber como
é ofensivo tentar forçar
alguma coisa ou alguém
que ainda não está preparado.
- inclusive eu mesma.
Quando me amei de verdade
comecei a me livrar de tudo
que não fosse saudável.
Isso quer dizer: pessoas, tarefas,
crenças e – qualquer coisa que
me pusesse pra baixo.
Minha razão chamou isso de egoísmo.
Mas hoje eu sei que é amor-próprio.
Quando me amei de verdade
deixei de temer meu tempo livre
e desisti de fazer planos.
Hoje faço o que acho certo
e no meu próprio ritmo.
Como isso é bom!
Quando me amei de verdade
desisti de querer ter sempre razão,
e com isso errei muito menos vezes.
Quando me amei de verdade
desisti de ficar revivendo o passado
e de me preocupar com o futuro.
Isso me mantém no presente,
que é onde a vida acontece.
Quando me amei de verdade
percebi que a minha mente
pode me atormentar e me decepcionar.
Mas quando eu a coloco
a serviço do meu coração,
ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Kim McMillen & Alison McMillen

Pintinhas

A vaidade é um animal que se deve alimentar em silêncio, para que ele não desperte completamente. De outra forma, torna-se insaciável.

Por isso, às vezes, quieto, olho para você longamente. E você me pergunta:

- O que foi?

E eu, bobo, respondo:

- Nada. Só olhando.

A mais banal das respostas. Usamos até nas lojas para dispensar vendedores quando queremos só dar uma espiada. Mas quando olho assim pra você é porque não quero dar apenas uma espiada. Quero tudo. O que desejo não se compra, também não se toma. Apenas se recebe, como um presente que nos espera a sorrir no portão de desembarque. E, olha lá, necessário é devolver depois de um tempo.

Sabe, você tem um jeito de pronunciar as palavras e, outro dia, me peguei a imitá-la em uma conversa banal com amigos. Uma maneira de falar a palavra “também”, por exemplo. Apesar de ela ser indispensável no dia a dia, sempre a achei horrível. Com sua pronúncia, inconfundível, tornei-a mais bela aos meus ouvidos.

Sinto que me torno um pouco de você assim, nessas coisinhas. Percebo às vezes que mudo, mesmo sem querer, meu jeito de me comportar para de alguma forma tornar-me mais semelhante. Não, não quero ser você, mas sim manter minha identidade, cada vez mais forte, através de coisas que, em você, acho belas.

Mais que achar belo, nos tornamos, aos poucos, aquilo que amamos. Olhe para quem você ama e pense se você quer ser daquele jeito. Se a resposta for sim, é provável que, de fato, seja amor. Se for não, não excluo a possibilidade de amor, mas talvez seja outra coisa.

Amo o que é belo, como o resto da humanidade, e, da mesma forma, acho belo o que amo. Assim, sei que acharei belo o mínimo gesto seu. O apagar todas as luzes e deixar a da varanda acesa para manter o quarto em uma suave penumbra, o comer de colher, o apertar dos olhos quando sorri, o chorar ao cortar cebola e o deixar-me ajudar na cozinha quando não permite isso a ninguém, o saber exatamente o que quer quando compra alguma roupa, o lembrar-me onde deixei as chaves, o fazer café na sua própria caneca, o ralhar com o sol que nasce na janela do meu quarto a iluminar tudo logo pela manhã, o ensinar-me jeitos e lugares de morder, o vasculhar de seus dedos em meu rosto, em minhas orelhas, bochechas e queixo, o dormir do lado esquerdo da cama, o deixar-se levar pelas histórias no cinema, o dançar e o interpretar ao contar uma história, o surtar das palavras ao escrever algo, o falar, às vezes, em segunda pessoa como se fôssemos um casal muito antigo.

- Sabes o que quero dizer, my lord?

- E como não saberia o que querias dizer, milady?

Alguns dizem que amamos no outro o que sabemos de belo em nós e detestamos nele aquilo que conhecemos de horrível em nosso íntimo. E, nesse misterioso processo – misterioso porque é difícil saber quando uma coisa se torna uma e uma se torna outra em uma tênue fronteira -, nesse misterioso processo, tentamos nos descobrir.

Ouvi certa vez a história de uma jovem que seria desposada por um vampiro. E ela estava atormentada com o fato de nunca mais poder ver seu reflexo, pois os espelhos nada dizem aos vampiros.

- Como poderei saber se estarei bela para você? – disse ela.

- Eu verei. E direi. – ele respondeu.

Quando se pergunta a outro se ficamos bem em uma roupa ou com um penteado, na verdade, queremos saber, no fim das contas, quem somos. Estamos cegos para nós e os espelhos nada nos dizem.

Eu queria ser seu espelho mais íntimo, aquele para o qual se olha e só se vê a verdade. Poder, assim, dizer-lhe quem você é. Doa a verdade ou faça, a verdade, gozar. Que em mim você se visse como eu a vejo, sem arestas, sem finos tecidos que permitem apenas a visão de uma silhueta. Não, não tenho noção de sua totalidade, nem sei se posso ou quero ter, se mesmo a minha, para mim é, ainda, secreta.

Porém, certas coisas não se dizem com palavras.

Mas está aqui. Está aqui essa totalidade. Em algum lugar. Onde? Está. Sei, pois quando olho em silêncio para você, longamente, você olha pra mim também. E é esse meu espelho. Nele tento me olhar não para amar a mim apenas, o que seria egoísta, mas para tentar me encontrar pleno naquele instante. E, no exato segundo em que penso que conseguirei, seus olhos se apertam em um sorriso, não seriam seus olhos se não o fizessem, e você pergunta:

- O que foi?

- Nada. Só olhando.

Era eu, que navegava por lugares seus como um desbravador sem que você se desse conta disso. Me perdia, me encontrava, alternadamente, quase desorientado, mas sem fazer muito caso para esse fato.

Não sei se é verdade que eu, a seguir, descobriria um pouco mais sobre mim. Ou sobre você. Pode ser ilusão, pode ser pretensão, pode ser vaidade. Mas nessa hora desvio um pouco o olhar para o Cruzeiro do Sul.

São suas pintinhas.

Uma constelação.

Não lembro que os primeiros navegadores a usaram para se orientar nos mares daqui.

Apenas penso que ela é a coisa mais linda desse mundo."


Alessandro Martins

O assassino era o escriba

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.
Paulo Leminski
"O cavalo está aqui para ficar, mas o automóvel é apenas uma moda". Presidente do banco Michigan, em 1903
"A televisão não vai durar. É uma tempestade num copo d’água". Mary Somerville, em 1948
"Não há razão para que alguém queira ter um computador em casa". Ken Olson, em 1977
Muita gente já duvidou de coisas que pareciam inacreditáveis. Não seja mais um. Acredite nas oportunidades.

Instantes - Ram Dass

SE EU PUDESSE VIVER NOVAMENTE A MINHA VIDA, NA PRÓXIMA VIDA TRATARIA DE COMETER MAIS ERROS. NÃO TENTARIA SER TÃO PERFEITO, RELAXARIA MAIS.
SERIA MAIS TOLO AINDA DO QUE TENHO SIDO. NA VERDADE, BEM POUCAS COISAS EU LEVARIA A SÉRIO.
SERIA MENOS HIGIÊNICO. CORRERIA MAIS RISCOS, CONTEMPLARIA MAIS ENTARDECERES, SUBIRIA MAIS MONTANHAS, NADARIA MAIS RIOS.
IRIA A MAIS LUGARES ONDE NUNCA FUI, TOMARIA MAIS SORVETES E MENOS LENTILHA, TERIA MAIS PROBLEMAS REAIS E MENOS PROBLEMAS IMAGINÁRIOS.
EU FUI UMA DESSAS PESSOAS QUE VIVEU SENSATA E PRODUTIVAMENTE CADA MINUTO DE VIDA. CLARO QUE TIVE MOMENTOS DE ALEGRIA.
MAS, SE PUDESSE VOLTAR A VIVER, TRATARIA DE TER SOMENTE BONS MOMENTOS
PORQUE, SE NÃO SABEM, DISSO É FEITA A VIDA, SÓ DE BONS MOMENTOS.
EU ERA UM DESSES QUE NUNCA IA A PARTE ALGUMA SEM UM TERMÔMETRO, UMA BOLSA DE GELO, UM GUARDA-CHUVAS E UM PARA-QUEDAS.
SE VOLTASSE A VIVER, VIAJARIA MAIS LEVE.
SE EU PUDESSE VOLTAR A VIVER, COMEÇARIA A ANDAR DESCALÇO NO COMEÇO DA PRIMAVERA E CONTINUARIA ASSIM ATÉ O FIM DO OUTONO.
DARIA MAIS VOLTAS NA MINHA VIDA, CONTEMPLARIA MAIS AMANHECERES, EU BRINCARIA COM MAIS CRIANÇAS, SE TIVESSE OUTRA VEZ UMA VIDA PELA FRENTE.
MAS, JÁ VIRAM, TENHO 85 ANOS E SEI QUE ESTOU MORRENDO.